A arte que desacelera

A ascensão do tricô reflete a necessidade de repensar o tempo na moda (e na vida)

A arte que desacelera

Por:

Isabela Vendramini

Isabela Vendramini | 30/11/2017

Um desafio: experimente, no meio de um bate-papo despretensioso entre amigos, perguntar o que a palavra tricô remete a cada um. Em uma tentativa solo, num diálogo comigo mesma, cheguei a expressões como 'casa da vô', 'domingo de manhã' e 'cheiro de café'. Tentar resgatar na memória quando aconteceu o primeiro contato com a arte de entrelaçar fios é um processo que demanda tempo e dedicação - o tricô está no cotidiano, é algo intrínseco a vida, existe por existir.

a arte do tricô ganha espaço e reforça a valorização do trabalho manual e a necessidade de repensar o tempo e desacelerar

Historicamente, a primeira técnica surge por volta de 600 a.C., nos países islâmicos do mediterrâneo, de lá migram para a Europa e então, para os quatro cantos do mundo. Em cada cultura, diferentes pontos e agulhas foram dando cara nova ao tricô. Não por acaso, a peça deixou o lugar de item utilitário do guarda-roupa para ser alçado a elemento de estilo e até objeto de arte e decoração.

Missoni | Foto: reprodução

Das peças esportivas do início do século 20, à era de Gabrielle Chanel e seus tubinhos pós Primeira Guerra Mundial, seguida das cores e estampas de Jean Patou, dos famosos twin-set de Otto Weisz, cruzando o 'knitting for victory' da Segunda Guerra Mundial, a moda de Emilio Pucci, Ottavio Missoni e novamente Chanel, as novas tecnologias dos anos 50 e sua produção eficiente, barata e em larga escala, Mary Quant e seus mini vestidos, as listras de Sonia Rykiel, os cardigãs esportivos dos anos 70, a desconstrução punk da Comme Des Garcons, chegando na modelagem andrógina dos anos 90. O tricô acompanhou todos os processos de desenvolvimento tecnológico da indústria, passou da mão à máquina, do trabalho lento e artesanal, ao desenvolvimento rápido e apressado que a nova demanda exigia.

O tricô de Mary Quant | Foto: Reprodução

qualquer trabalho manual é um convite a trabalhar aspectos humanos como paciência, foco e silêncio 

Interessante é notar que a arte do tricô vem ganhando espaço de destaque nas coleções de grandes casas como Prada, Gucci e Alexander McQueen reforçando a valorização do trabalho manual e da necessidade de repensar o tempo e desacelerar. Praticar qualquer trabalho manual é um convite a trabalhar aspectos humanos que nosso ritmo de vida e ambiente social nos apresenta como dispensáveis - a paciência, o foco e o silêncio são exemplos disso. É como uma válvula de escape de um ritmo frenético que foi ligado (por nós mesmos) no piloto automático. Me veio a memória, a mesma 'casa da vô' e o 'cheiro de café', uma tarde, alguns anos atrás, quando, perdida nas incontáveis linhas do metrô de Nova York, cansei de observar pessoas que guardavam os celulares nos bolsos para se embrenhar em meio aos fios que davam voltas na famosa dupla de agulhas. Ainda sem forma, o fruto daquele entrelaçar demandava tempo.

Certa vez ouvi dizer que fazer tricô é aproveitar a chance mais descomplicada que temos de errar, desfazer e tentar de novo. Nunca é tarde demais para aprender. E te garanto, vestir e tocar algo feito pelas suas próprias mãos, não tem preço.

'The Queen of Knitwear'. O estilo preppy de Sonia Rykiel | Foto: reprodução

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