SOBRE OLHAR, FAZER E VESTIR DIFERENTE

Representatividade e diversidade se tornaram palavras mandatórias na moda

SOBRE OLHAR, FAZER E VESTIR DIFERENTE

Por:

Luigi Torre

Luigi Torre | 10/09/2017

Começamos o SPFW pedindo por mais desfiles sobre pessoas e seres humanos e terminamos exatamente com isso. Numa performance-manifesto, a Cemfreio, de Victor Apolinário, deixou claro o quão urgente é a revisão de alguns conceitos e mecanismos de produção e representação na moda. Ronaldo Fraga também derrubou paradigmas: trocou a sala de desfile por um passeio no Parque Ibirapuera, o prêt-à-porter por moda praia, e as tops de corpos esculturais por pessoas das mais variadas formas físicas e idades. E a Jahnkoy, projeto da estilista-artista russa Maria Kazakova, levantou questionamentos sobre regionalidade, multiculturalismo, deslocamento e gênero. Exemplos claros de que o caminho da mudança tem mão única, não tem volta. 

 

Maria Kazakova na apresentação de sua Jahnkoy | foto: reprodução

E tudo isso em espaços abertos (ou quase). Cemfreio e Yahnkoy utilizaram os corredores do prédio da Bienal e Ronaldo abriu cadeiras de praia no gramado do parque. Passantes e curioso não só eram permitidos observar o que ali acontecia, eram bem-vindos. Às vezes, necessários até. É que a moda está mudando. E muito. Representatividade e diversidade se tornaram palavras mandatórias em qualquer apresentação e coleção. Já falamos muito disso e seguiremos falando. Mas não é só. Métodos de produção horizontais e descentralizadores estão dando voz a quem nunca antes pode falar. Hoje ninguém mais quer ter uma roupa imposta ao seu estilo ou guarda-roupa. O que importante é fazer suas necessidades e vontade ouvidas. É criar junto com a marca e seu estilista. É ter voz ativa no que faz sentido para você e para o seu mundo.

Em entrevista a Camila Yahn, no site FFW, Kazakova diz que as roupas que faz criam oportunidades para as pessoas se juntarem. “Pra mim, a moda é o canal para juntar as pessoas, um tipo de criatividade que diz: eu posso criar, reunir 50 pessoas em um dia”, afirma ela.

A ditadura da moda cai por terra no momento em que o indivíduo exige ter sua visão levada em consideração.

Victor Apolinário tem visão similar, ainda que com um modus operandi diferente, mais inclusivo e colaborativo. Com ajuda de Jackson Araújo e apoio da Natura, Victor orientou um grupo de 16 pessoas a interferirem numa coleção criada por ele e produzida junto do coletivo carioca Ahlma. As intervenções, no caso, se deram a partir da representação e questionamentos pessoais de cada participante. “Nosso desafio foi juntar pessoas que tivessem representatividade, questões para resolver e, com isso, inspirar mais gente a se aceitar, entender quem são e participarem de novos processos na sociedade”, explicou Jackson, em entrevista a Elle. E Victor fez questão de reforçar: “A protagonista não é roupa, é a pessoa.” Como ele disse à revista, é sobre um processo criativo horizontal, sem autoria. Quem cria a roupa é quem vai vesti-la.

Victor Apolinário no desfile-protesto que fechou o SPFW N44 | foto: reprodução

A questão da autoria na moda sempre foi tida como essencial. Uma peça custa o que custa, é o que é, não só pelas suas qualidades materiais, mas pela sua etiqueta. É a história da assinatura. Até há pouco tempo, era ela – essa assinatura, esse criador – que ditava quando e o que deveríamos vesti. Agora não mais. A ditadura da moda cai por terra no momento em que o indivíduo exige ter sua visão levada em consideração. Personalidade e personalização são qualidades essenciais a qualquer produto. E a lógica, antes bastante individualista, começa a ganhar contorno coletivos. Nas palavras de Victor à Elle: “é o fim da produção egocêntrica”. E que assim eja.

Compartilhar